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A conivência da sociedade com a cultura do estupro‏

Uma das principais discussões da semana nas redes sociais tem sido o caso da Valentina, DOZE ANOS, participante do programa MasterChef Junior (Band), que sofreu com ataques dos mais diversos tipos, de seres nojentos que publicizaram na internet que a estuprariam, como se isso fosse a coisa mais normal do universo.

Será tão difícil de entender que este é mais um reflexo da cultura de estupro, que muitos dizem não existir? Tal cultura que se faz presente no nosso cotidiano de maneira tão latente. Como quando crianças são hipersexualidades em campanhas publicitárias (só o que não falta são casos assim) ou quando parentes colocam meninas de calcinha para dançar músicas de adulto e todos acham aquilo a coisa mais fofa.

É, principalmente, essa mesma cultura do estupro que compactua com toda e qualquer violência que nossas mulheres sofrem desde a infância até a velhice (ou morte, que pode acontecer bem antes, infezlimente). Tal cultura também dá espaço para que homens acreditem que podem fazer piadas e as mais rídiculas brincadeiras com a questão do estupro, como se isso tivesse alguma graça.

Diante da repercussão do caso da menina no MasterChef Junior foi criada a campanha #primeiroassedio, onde mulheres relatavam suas primeiras experiências com assédio e como isso é mais comum do que a gente pode imaginar. Obviamente, a campanha também virou chacota para homens babacas, como o cantor Roger e seu altíssimo QI de babaquice.

E não vamos seguir na ilusão do senso comum, que caras que brincam ou escancaram que estuprariam crianças são doentes, porque isso é minimizar a gravidade da situação. Esses caras não são doentes. Eles são homens, repugnantes, mas homens que juram ter todo e qualquer direito sobre o corpo da mulher, independente dela ter quarenta ou doze anos.

Milhões são as Valentinas que existem por todo o Brasil e sofrem com violência sexual diária e sequer sabem o que aquilo significa. Permanecemos em uma sociedade que é conivente sim com a cultura do estupro, permitindo que esta se alastre por todos os lados, como algo natural. Milhões de Valentinas estão por aí desamparadas, sem ter quem olhe por elas. Precisamos cuidar de nossas meninas, empoderá-las, mostrando que elas não são, em hipótese alguma, culpadas pela violência que sofrem.

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Por que um beijo te incomoda tanto?

(TV Globo/Divulgação).

Na semana passada, a Rede Globo estreou a novela Babilônia e já causou aquele rebuliço pela internet e, principalmente, por todo o país. Confesso que faz muito tempo que não assisto novela da toda poderosa emissora brasileira, mas seria impossível negar tamanha estreia que chegou pisoteando os valores da tão defendida e, ao mesmo tempo, hipócrita ‘‘família tradicional brasileira’’ (lê-se aqui grupo de pessoas que se acham superiores por serem cheios de preconceitos e integrarem a fórmula excludente de família como, necessariamente, homem + mulher + filhinhos).

A questão é que logo em seu primeiro capitulo Babilônia exibiu um digno beijo entre as atrizes consagradas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Sim, até parece mentira, mas é isso mesmo que você leu. Vou até explicar em detalhes, para não restar dúvidas: A Rede Globo de Televisão, já tão conhecida por seus preconceitos velados, seus estereótipos (re)mastigadas e tudo de ruim que há começou uma novela com um beijo entre duas mulheres e senhoras de idade, que fogem do típico padrão de fetiche masculino perante às mulheres lésbicas.

E aqui, mais uma vez, temos uma prova de que representatividade nunca foi tão fundamental como numa época em que a intolerância corre solta para todas as bocas, dedos ferozes (na internet, essencialmente) e os demais ambientes da vida em sociedade. Porque se alguém não se encaixa na fôrma estreita de alguns ‘‘seres humanos’’, logo é considerado um ser errado, que está indo contra a lei de deus. Mas que deus? A dura verdade é que muita gente deveria, pelo menos, começar a entender que a sua religião não é a base incontestável para o resto do mundo. Você acredita? Tudo bem. Está no seu direito, mas isso acaba quando você ousa ferir o direito do outro, lhe dizendo como ele deve ou não agir ou ainda disfarçando seu preconceito com um ‘‘eu respeito, mas não aceito, tenho até amigos que são’’. Esse discurso é tão vazio e desonesto (para não dizer adjetivos mais pesados e que continuariam servindo, perfeitamente, para definir tal fala). Porque você não tem que aceitar nada. É a vida do outro. É um direito pleno, da outra pessoa, amar quem ela bem entender, sendo do mesmo sexo ou não. Seja lá quem for. Existindo amor, isso é o que deveria importar acima de qualquer coisa.

Assim, engula sua ignorância desmedida e tente ser mais sensato. Duas senhoras se beijaram em horário nobre? Beijaram e espero, sinceramente, que se beijem muito mais. Não é só pela quantidade de beijos ou como isso vai afetar quem não suporta ver o diferente na TV e sim para mostrar que a diversidade existe na vida real para muito além dos rótulos e que ela precisa ser estampada nos televisores de todos os brasileiros, para que, de alguma maneira, quem não sente acolhido entre os seus, passe a enxergar que não está só e que não precisa se esconder de ninguém, negando assim sua existência.

Então, surge o questionamento: Será mesmo que foi só um beijo lésbico (que nessa altura do campeonato, nem deveríamos estar fazendo mais este tipo de distinção, porque tudo é beijo) que incomodou tanto a tal ‘‘família tradicional brasileira’’? Não adianta mais disfarçarem um tamanho incomodo com o blablabla de ‘‘ai o mundo está perdido,as crianças não podem ver isso’’. Gente, por favor! Parem de achar que homossexualidade é doença e que ‘‘transmite’’ assim, por osmose ou sei lá mais o que imaginam. Isso é ridículo. É desrespeitoso. Um beijo entre pessoas do mesmo sexo na televisão não causa mal nenhum a ninguém. E se causa em você, melhor abrir a mente e se perguntar se o problema todo não está em ti.

Por essas e muitas outras é importantíssimo jamais parar de ecoar o grito de luta:

Chega de lesbofobia! Chega de preconceito!