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Sobre “Que Horas Ela Volta?” e como deus é negra, pobre e mãe solteira

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via Revista Cinética

Antes de qualquer coisa, já quero indicar o texto da maravilhosa Stephanie Ribeiro sobre a produção em questão. “Afinal, o que leva os brancos a adorarem que horas ela volta?” traz uma crítica bastante fundamental sobre a sociedade brasileira e o racismo velado no qual nos afundamos cada vez mais. O feminismo deve sim ter como um de seus pilares, a luta constante contra o racismo, evidenciando que as protagonistas de tamanha luta são as mulheres negras, já tão silenciadas ao longos da história da humanidade.

Acabei assistindo “Que Horas Ela Volta?” só um tempo depois que este ganhou destaque pelo Brasil e no mundo. Em seus primeiros minutos, a produção já me ganhou e, para variar, vi crescer em mim aquela necessidade de escrever as minhas impressões do filme. O problema é que, enquanto mulher branca privilegiada neste país de desigualdades sociais mais do que explícitas, eu tenho que saber, conscientemente, do meu devido lugar de fala. Mas isso nem sempre é tão simples quanto parece. Na minha cabeça, eu posso até ter as melhores intenções do mundo para problematizar um filme que trata da relação de classe entre empregadas domésticas e patrões, mas se tais problematizações soarem de forma desagradável para a população negra – mulheres negras, em especial – eu já terei cometido um completo desserviço à militância feminista na qual luto e acredito e, nem de longe, é isso que desejo.

Sendo assim, podemos analisar “Que Horas Ela Volta?” sob a ótica da urgência, já que nós vivemos num país, onde parece que só através da arte, daquela arte que ganha as telas de cinema com grande repercussão, é que damos conta da essencialidade em se debater temas que são intrínsecos à nossa existência.

O filme não fala só da cozinha e do quartinho dos fundos, que separa patrões (brancos) e domésticas (negras) por verdadeiros abismos sociais. Este é somente o pano de fundo para fazer emergir uma discussão muito maior sobre um Brasil, altamente, separatista, em cada detalhe do dia a dia. Precisamos, imediatamente, olhar para este Brasil com um sincero olhar de crítica, de questionamento, de quem não se conforma nem um pouco com a sujeira que vê por aí. Olhar para este Brasil com aquele olhar de quem não vê beleza alguma em um cara, que dentro do conforto do seu carro com ar-condicionado, tira foto de um menino negro no sinal, que observa sua filha branca sob um vidro fechado. Não há beleza alguma em se aproveitar da situação de vulnerabilidade social de um menino negro para ganhar like no Facebook, moço. Isso não te fez mais humano. Pelo contrário. Vamos parar de querer receber palminha por “ações” que não condizem em nada com quem somos na realidade.

Por mais que pareça, no mínimo, superficial que a gente só consiga trazer questões de verdadeiro cunho crítico e social por meio de filmes ou produções artísticas do tipo, estes, por sua vez, não devem ter seus valores negados. É através destes exemplos, que conseguimos fazer com que o grande público abra um pouco mais os olhos e, principalmente, a mentalidade para o que devemos debater e buscar melhorar e mudar.

Percebo “Que Horas Ela Volta?” como um filme sensível, Anna Muylaert, que, como vi, foi a primeira mulher em 30 anos a representar o Brasil no Oscar. Sim, isso mesmo que você acabou de ler. A PRIMEIRA mulher em TRINTA anos. O que já nos evidencia outra urgência que deve ser também abarcada pelo feminismo: Por que as mulheres diretoras, roteiristas, produtoras de cinema não ganham seu devido reconhecimento? Até parece que não existe mulher fazendo filme, por trás das câmeras, no Brasil.

Mas, ao mesmo tempo, que tal filme carrega este tom sensível em suas escolhas de falas e posicionamento de câmera, ele é pesado, cortante, como uma faca que vai retalhando-nos por inteiro. Confesso eu que raros são os filmes – brasileiros, ainda por cima – que me deixam sem piscar e foi assim que este filme me deixou. A atuação de Regina Casé foi muito coerente, posso destacar, mas o que me fez refletir, ao ler o texto da Stephanie Ribeiro, citado mais assim: Por que Regina Casé? Teria sido a melhor decisão? Ou só mais uma atriz que se aproximasse dos padrões de branquitude e que ainda guardasse uma herança de fisionomia do que é considerado classe baixa, de empregada doméstica no Brasil?

Compreendemos que o filme em si arregaça várias feridas sociais e de classe no país, mas não as revira de fato. Também nos embrulha o estômago, mas continuamos achando normal as negras servirem as brancas, assim como na época das escravas e sinhazinhas. Seguimos entoando o discurso que não existe mais racismo por aqui, enquanto seguramos a bolsa contra o corpo quando vemos o cara negro se aproximar. Comovemos-nos com o filme, mas não paramos de acreditar que todos possuem as mesmas oportunidades ou que tudo bem uma atriz global negra já ter feito quase 30 papéis só como empregada doméstica. Brandamos o “somos todos iguais”, mas somos contra as cotas e gritamos que devemos nutrir uma “consciência humana” acima de tudo. Onde mais guardamos nossa hipocrisia de gente branca privilegiada?

A conivência da sociedade com a cultura do estupro‏

Uma das principais discussões da semana nas redes sociais tem sido o caso da Valentina, DOZE ANOS, participante do programa MasterChef Junior (Band), que sofreu com ataques dos mais diversos tipos, de seres nojentos que publicizaram na internet que a estuprariam, como se isso fosse a coisa mais normal do universo.

Será tão difícil de entender que este é mais um reflexo da cultura de estupro, que muitos dizem não existir? Tal cultura que se faz presente no nosso cotidiano de maneira tão latente. Como quando crianças são hipersexualidades em campanhas publicitárias (só o que não falta são casos assim) ou quando parentes colocam meninas de calcinha para dançar músicas de adulto e todos acham aquilo a coisa mais fofa.

É, principalmente, essa mesma cultura do estupro que compactua com toda e qualquer violência que nossas mulheres sofrem desde a infância até a velhice (ou morte, que pode acontecer bem antes, infezlimente). Tal cultura também dá espaço para que homens acreditem que podem fazer piadas e as mais rídiculas brincadeiras com a questão do estupro, como se isso tivesse alguma graça.

Diante da repercussão do caso da menina no MasterChef Junior foi criada a campanha #primeiroassedio, onde mulheres relatavam suas primeiras experiências com assédio e como isso é mais comum do que a gente pode imaginar. Obviamente, a campanha também virou chacota para homens babacas, como o cantor Roger e seu altíssimo QI de babaquice.

E não vamos seguir na ilusão do senso comum, que caras que brincam ou escancaram que estuprariam crianças são doentes, porque isso é minimizar a gravidade da situação. Esses caras não são doentes. Eles são homens, repugnantes, mas homens que juram ter todo e qualquer direito sobre o corpo da mulher, independente dela ter quarenta ou doze anos.

Milhões são as Valentinas que existem por todo o Brasil e sofrem com violência sexual diária e sequer sabem o que aquilo significa. Permanecemos em uma sociedade que é conivente sim com a cultura do estupro, permitindo que esta se alastre por todos os lados, como algo natural. Milhões de Valentinas estão por aí desamparadas, sem ter quem olhe por elas. Precisamos cuidar de nossas meninas, empoderá-las, mostrando que elas não são, em hipótese alguma, culpadas pela violência que sofrem.

Sobre Malévola e como os contos de fadas não são bem o que nos ensinaram

Maleficent, 2014.

Acabei de assistir Malévola (2014) pela primeira vez e meu coração ainda palpita de uma sensação reconfortante e meus olhos estão inundados por um sentimento de gostaria muito de ter descoberto esta versão do conto original quando mais nova. Pois uma história que coloca abaixo a ideia já, exageradamente, ruminada por épocas sobre os pomposos contos de fadas e os tais beijos salvadores de príncipes encantados merece todo o meu respeito e admiração.

Confesso que ainda estou tentando digerir tudo que vivi e senti. Realmente estou apaixonada por este filme e não consigo imaginar mais ninguém que atuaria de forma tão impecável quanto a poderosíssima Angelina Jolie no papel principal.

A produção é, de fato, uma reinvenção do clássico A Bela Adormecida. Não adianta nem comparar, pois se trata de uma história bem diferente, contada a partir daquela que sempre foi considerada a vilã inquestionável. Mas será mesmo que a linha que separa o bem e o mal é tão ténue assim, como ditam os contos de fadas?

Malévola se impõe como uma produção sobre resistência feminina acima de qualquer dominação masculina que existe desde que o mundo é mundo e que se perdura até no universo da fantasia. O problema está, exatamente, que o plano fantasioso ainda segue com um dos principais responsáveis por pisotear a mente, a autoestima e todo e qualquer sonho de liberdade, autonomia e independência de nossas meninas. Elas crescem à espera de um príncipe encantado que deverá salvá-las. Mas de quê? Delas mesmas e de tudo que podem um dia vir a ser? Cresci com a ideia alienante que só seria plena e feliz de verdade quando o meu príncipe aparecesse. Perdi tempo e momentos comigo mesma nutrindo tamanha noção equivocada que me foi ensinada e empurrada goela abaixo. Só consegui abrir meus olhos recentemente (2012, mais precisamente) com a descoberta do feminismo na minha vida e teria aberto mais cedo não só olhos, quanto a cabeça, se a história da Malévola me fosse contada no lugar daquela da bela adormecida e outras do tipo.

Não digo que devemos privar nossas meninas da fantasia. Não mesmo. Mas elas precisam saber que suas vidas não giram em torno de príncipes encantados. Nossas meninas precisam ter acesso à realidade das mulheres, que passa bem longe daquela narrada, mascarada e enfeitada nos contos de fadas. Elas merecem ter apoio feminino e alguém para empoderá-las e lhes afirmar todos os dias (se assim for necessário e, realmente, é) que elas são as heroínas das próprias histórias e ninguém mais.

Malévola é um marco no quesito evolução dos contos de fadas. O filme gera uma excelente reflexão ao ser assistido por pessoas capazes de se desligarem de seus privilégios patriarcais e valores morais conservadores para observar como a vida real das mulheres na nossa sociedade é bem difícil e, totalmente, oposta daquela repassada na TV, no cinema e nos livros infantis.

Pensei em focar mais no filme em si, mas acho que minha opinião já está bem expressa acima. Assim, recomendo a leitura deste texto incrível (clique aqui), que levanta mais pontos interessantes sobre esta maravilhosa produção cinematográfica.


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Por que um beijo te incomoda tanto?

(TV Globo/Divulgação).

Na semana passada, a Rede Globo estreou a novela Babilônia e já causou aquele rebuliço pela internet e, principalmente, por todo o país. Confesso que faz muito tempo que não assisto novela da toda poderosa emissora brasileira, mas seria impossível negar tamanha estreia que chegou pisoteando os valores da tão defendida e, ao mesmo tempo, hipócrita ‘‘família tradicional brasileira’’ (lê-se aqui grupo de pessoas que se acham superiores por serem cheios de preconceitos e integrarem a fórmula excludente de família como, necessariamente, homem + mulher + filhinhos).

A questão é que logo em seu primeiro capitulo Babilônia exibiu um digno beijo entre as atrizes consagradas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Sim, até parece mentira, mas é isso mesmo que você leu. Vou até explicar em detalhes, para não restar dúvidas: A Rede Globo de Televisão, já tão conhecida por seus preconceitos velados, seus estereótipos (re)mastigadas e tudo de ruim que há começou uma novela com um beijo entre duas mulheres e senhoras de idade, que fogem do típico padrão de fetiche masculino perante às mulheres lésbicas.

E aqui, mais uma vez, temos uma prova de que representatividade nunca foi tão fundamental como numa época em que a intolerância corre solta para todas as bocas, dedos ferozes (na internet, essencialmente) e os demais ambientes da vida em sociedade. Porque se alguém não se encaixa na fôrma estreita de alguns ‘‘seres humanos’’, logo é considerado um ser errado, que está indo contra a lei de deus. Mas que deus? A dura verdade é que muita gente deveria, pelo menos, começar a entender que a sua religião não é a base incontestável para o resto do mundo. Você acredita? Tudo bem. Está no seu direito, mas isso acaba quando você ousa ferir o direito do outro, lhe dizendo como ele deve ou não agir ou ainda disfarçando seu preconceito com um ‘‘eu respeito, mas não aceito, tenho até amigos que são’’. Esse discurso é tão vazio e desonesto (para não dizer adjetivos mais pesados e que continuariam servindo, perfeitamente, para definir tal fala). Porque você não tem que aceitar nada. É a vida do outro. É um direito pleno, da outra pessoa, amar quem ela bem entender, sendo do mesmo sexo ou não. Seja lá quem for. Existindo amor, isso é o que deveria importar acima de qualquer coisa.

Assim, engula sua ignorância desmedida e tente ser mais sensato. Duas senhoras se beijaram em horário nobre? Beijaram e espero, sinceramente, que se beijem muito mais. Não é só pela quantidade de beijos ou como isso vai afetar quem não suporta ver o diferente na TV e sim para mostrar que a diversidade existe na vida real para muito além dos rótulos e que ela precisa ser estampada nos televisores de todos os brasileiros, para que, de alguma maneira, quem não sente acolhido entre os seus, passe a enxergar que não está só e que não precisa se esconder de ninguém, negando assim sua existência.

Então, surge o questionamento: Será mesmo que foi só um beijo lésbico (que nessa altura do campeonato, nem deveríamos estar fazendo mais este tipo de distinção, porque tudo é beijo) que incomodou tanto a tal ‘‘família tradicional brasileira’’? Não adianta mais disfarçarem um tamanho incomodo com o blablabla de ‘‘ai o mundo está perdido,as crianças não podem ver isso’’. Gente, por favor! Parem de achar que homossexualidade é doença e que ‘‘transmite’’ assim, por osmose ou sei lá mais o que imaginam. Isso é ridículo. É desrespeitoso. Um beijo entre pessoas do mesmo sexo na televisão não causa mal nenhum a ninguém. E se causa em você, melhor abrir a mente e se perguntar se o problema todo não está em ti.

Por essas e muitas outras é importantíssimo jamais parar de ecoar o grito de luta:

Chega de lesbofobia! Chega de preconceito!