Arquivo da categoria: Preconceitos

Meus desejos feministas para 2016

12376222_806821909423179_201423127336878840_n

não sei de quem é a foto. se souber, avisa aí.

As pessoas costumam fazer suas listas de desejos para o ano que vai começar no finalzinho do ano anterior, mas como eu gosto mesmo é de nadar contra a corrente, farei uma lista de desejos bem especial com 2016 já por aqui.

Resolvi não fazer aquela lista de sempre, com coisas tão somente sobre mim e pronto. Inspirada por esta postagem aqui, vou elencar abaixo alguns dos meus principais desejos para um ano de 2016, cada vez mais, feminista, onde possamos lutar muito mais pelos direitos das mulheres e de todas as classes oprimidas e massacradas por este sistema patriarcal vigente.

– QUE AS PESSOAS PAREM DE ACHAR QUE FEMINISMO E MACHISMO SÃO OPOSTOS

Algo muito comum, para quem não está inserido dentro do movimento feminista, que não o conhece minimamente ou com o intuito de tão somente invalidá-lo é afirmar que este refere-se à uma oposição do que é considerado machismo. Só que isso não passa do mais completo “engano” (para não dizer desserviço ou coisa pior).

Feminismo e machismo nem de longe podem ser relacionados desta forma, já que significam coisas, COMPLETAMENTE, distintas.

Machismo: É um sistema de opressão que considera as mulheres INFERIORES aos homens só porque são MULHERES. O machismo silencia, massacra, violenta – de todas as formas possíveis – além de, principal e infelizmente, ser o responsável-mor pela morte de mulheres todos os dias.

Feminismo: Em resumo, trata-se de um movimento que luta com e pelas mulheres. Pelo direito delas sobre a própria vida, seus corpos e suas escolhas. Respeita-se aqui a diversidade dos sujeitos, além de buscar a equidade (uma espécie de igualdade, mas que leva em consideração as diferenças de ambos) entre homens e mulheres.

QUE A CULTURA DO ESTUPRO SEJA ENTENDIDA COMO UMA REALIDADE QUE DEVE SER COMBATIDA

Sei que ninguém vai acordar num fatídico dia tendo total consciência disso, mas que, pelo menos, a gente pare de sair por aí reproduzindo coisas nada a ver, como por exemplo, que uma mulher foi estuprada porque estava com uma roupa curta. Gente, por favor, ISSO NÃO EXISTE. Sabe quais os únicos culpados por um estupro? Os estupradores. É essa cultura do estupro que, de certa forma, legitima que as pessoas digam tal atrocidade e que os outros levem isso à sério.

A cultura do estupro está mais presente no cotidiano da sociedade do que podemos sequer pensar. É quando um cara acredita que pode dar em cima de uma CRIANÇA porque ela “parece” mulher. Ou quando uma mulher não pode voltar sozinha pra casa à noite, porque caso aconteça algo com ela, ela será vista como culpada, porque estava sozinha numa rua escura. É também quando uma mulher não pode beber muito numa balada, porque, claro, ela “está pedindo”. Isso de sempre culpar mulheres vítimas de violência sexual também é algo legitimado pela tal cultura do estupro. Essa mesma cultura que estampa peças publicitárias objetivando mulheres das mais repugnantes maneiras. Ou deixa personagens femininas seminuas em jogos de vídeo game. A lista é imensa.

– QUE DEBATER SOBRE ABORTO SEJA ALGO POSSÍVEL

É de comum acordo que quando o tema aborto surge numa conversa, logo percebe-se pessoas revirando os olhos, prontas para atacar qualquer um que se diga pela vida das mulheres.

O aborto é tido como polêmica, porque está diretamente relacionado com as mulheres e seus corpos. Afinal, vivemos numa sociedade que obriga, veementemente, mulheres a serem mães (até se a gravidez tiver sido resultado de estupro), mas quando as crianças nascem e crescem é essa mesma sociedade que não está nem aí para aquela mãe e seu filho, pois a preocupação agora é reduzir a maioridade penal. Prioridades. Sempre as prioridades do Estado e seus aliados.

Lutemos por um 2016 em que a nós possamos debater a questão com mais liberdade, com mais direito de fala, de explicar didaticamente, de conscientizar. É total balela quem, do alto de sua ignorância, diz que se o aborto for “legalizado”, as mulheres vão sair abortando desenfreadamente. Como se isso fosse um lindo hobby, não é? Tamanha afirmação só pode sair de quem não se importa com ninguém, além do seu próprio umbigo.

Qualquer mulher deve ser, plenamente, dona de si. Ela quem decide tudo no que diz ao seu corpo. Não é Estado. Muito menos, igreja. Se a gente parar só um pouquinho de ser tão hipócrita e pensar a realidade, mulheres abortam quer você aceitando ou não. A questão é que as ricas abortam, mas as mulheres negras e pobres são as que mais morrem em verdadeiros açougues. Pela despenalização do aborto sim, senhor!

– QUE A VIOLÊNCIA CONTRA MULHER SEJA VISTA COMO O PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA E NÃO MAIS COMO O FAMIGERADO “ EM BRIGA DE MARIDO E MULHER, NINGUÉM METE A COLHER”

Nenhuma mulher tem que porque sofrer sozinha com a violência. Elas precisam ser ouvidas e entendidas. Elas necessitam, urgentemente, de todo o apoio e, obviamente, auxilio jurídico para que tenham a oportunidade de seguir em frente, sabendo que não estão abandonadas, que serão tomadas as ações cabíveis para que suas vidas sejam preservadas, acima de toda e qualquer outra coisa.

Os números de mortes de mulheres por violência domésticas são perturbadores. O “Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil” (aqui) está aí para nos mostrar isso por um ângulo bem nítido. E, na minha concepção, essa ideia de combate da violência contra as mulheres deve emergir da base, de cada indivíduo da sociedade. Enquanto essa consciência não for, minimamente, alcançada, continuaremos repetindo nojeiras como “ela só pode gostar de apanhar”, “por que não fez nada?”, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” e daí pra pior.

Então, a lista de desejos feministas para 2016 é bem maior, mas tentei listar algumas das pautas mais evidentes dentro de um âmbito mais geral. Reafirmo que a luta deve ser diária. A militância não tem hora nem lugar. A gente é feminista na internet e fora dela, porque as coisas como estão, não podem continuar. É fácil? Em hipótese alguma, mas a causa é maior que todas nós.

Anúncios

Sobre “Que Horas Ela Volta?” e como deus é negra, pobre e mãe solteira

quehoraselavolta2

via Revista Cinética

Antes de qualquer coisa, já quero indicar o texto da maravilhosa Stephanie Ribeiro sobre a produção em questão. “Afinal, o que leva os brancos a adorarem que horas ela volta?” traz uma crítica bastante fundamental sobre a sociedade brasileira e o racismo velado no qual nos afundamos cada vez mais. O feminismo deve sim ter como um de seus pilares, a luta constante contra o racismo, evidenciando que as protagonistas de tamanha luta são as mulheres negras, já tão silenciadas ao longos da história da humanidade.

Acabei assistindo “Que Horas Ela Volta?” só um tempo depois que este ganhou destaque pelo Brasil e no mundo. Em seus primeiros minutos, a produção já me ganhou e, para variar, vi crescer em mim aquela necessidade de escrever as minhas impressões do filme. O problema é que, enquanto mulher branca privilegiada neste país de desigualdades sociais mais do que explícitas, eu tenho que saber, conscientemente, do meu devido lugar de fala. Mas isso nem sempre é tão simples quanto parece. Na minha cabeça, eu posso até ter as melhores intenções do mundo para problematizar um filme que trata da relação de classe entre empregadas domésticas e patrões, mas se tais problematizações soarem de forma desagradável para a população negra – mulheres negras, em especial – eu já terei cometido um completo desserviço à militância feminista na qual luto e acredito e, nem de longe, é isso que desejo.

Sendo assim, podemos analisar “Que Horas Ela Volta?” sob a ótica da urgência, já que nós vivemos num país, onde parece que só através da arte, daquela arte que ganha as telas de cinema com grande repercussão, é que damos conta da essencialidade em se debater temas que são intrínsecos à nossa existência.

O filme não fala só da cozinha e do quartinho dos fundos, que separa patrões (brancos) e domésticas (negras) por verdadeiros abismos sociais. Este é somente o pano de fundo para fazer emergir uma discussão muito maior sobre um Brasil, altamente, separatista, em cada detalhe do dia a dia. Precisamos, imediatamente, olhar para este Brasil com um sincero olhar de crítica, de questionamento, de quem não se conforma nem um pouco com a sujeira que vê por aí. Olhar para este Brasil com aquele olhar de quem não vê beleza alguma em um cara, que dentro do conforto do seu carro com ar-condicionado, tira foto de um menino negro no sinal, que observa sua filha branca sob um vidro fechado. Não há beleza alguma em se aproveitar da situação de vulnerabilidade social de um menino negro para ganhar like no Facebook, moço. Isso não te fez mais humano. Pelo contrário. Vamos parar de querer receber palminha por “ações” que não condizem em nada com quem somos na realidade.

Por mais que pareça, no mínimo, superficial que a gente só consiga trazer questões de verdadeiro cunho crítico e social por meio de filmes ou produções artísticas do tipo, estes, por sua vez, não devem ter seus valores negados. É através destes exemplos, que conseguimos fazer com que o grande público abra um pouco mais os olhos e, principalmente, a mentalidade para o que devemos debater e buscar melhorar e mudar.

Percebo “Que Horas Ela Volta?” como um filme sensível, Anna Muylaert, que, como vi, foi a primeira mulher em 30 anos a representar o Brasil no Oscar. Sim, isso mesmo que você acabou de ler. A PRIMEIRA mulher em TRINTA anos. O que já nos evidencia outra urgência que deve ser também abarcada pelo feminismo: Por que as mulheres diretoras, roteiristas, produtoras de cinema não ganham seu devido reconhecimento? Até parece que não existe mulher fazendo filme, por trás das câmeras, no Brasil.

Mas, ao mesmo tempo, que tal filme carrega este tom sensível em suas escolhas de falas e posicionamento de câmera, ele é pesado, cortante, como uma faca que vai retalhando-nos por inteiro. Confesso eu que raros são os filmes – brasileiros, ainda por cima – que me deixam sem piscar e foi assim que este filme me deixou. A atuação de Regina Casé foi muito coerente, posso destacar, mas o que me fez refletir, ao ler o texto da Stephanie Ribeiro, citado mais assim: Por que Regina Casé? Teria sido a melhor decisão? Ou só mais uma atriz que se aproximasse dos padrões de branquitude e que ainda guardasse uma herança de fisionomia do que é considerado classe baixa, de empregada doméstica no Brasil?

Compreendemos que o filme em si arregaça várias feridas sociais e de classe no país, mas não as revira de fato. Também nos embrulha o estômago, mas continuamos achando normal as negras servirem as brancas, assim como na época das escravas e sinhazinhas. Seguimos entoando o discurso que não existe mais racismo por aqui, enquanto seguramos a bolsa contra o corpo quando vemos o cara negro se aproximar. Comovemos-nos com o filme, mas não paramos de acreditar que todos possuem as mesmas oportunidades ou que tudo bem uma atriz global negra já ter feito quase 30 papéis só como empregada doméstica. Brandamos o “somos todos iguais”, mas somos contra as cotas e gritamos que devemos nutrir uma “consciência humana” acima de tudo. Onde mais guardamos nossa hipocrisia de gente branca privilegiada?

Da minha depressão quem sabe sou eu

Falar sobre depressão é, de certo modo, difícil pra mim, porque é falar sobre quem eu sou. Principalmente, agora.

Eu fui diagnosticada com um quadro depressivo grave e faço tratamento psiquiátrico tem alguns meses. Mas sabe, depressão não é algo que a gente acorda numa bela manhã, olha para o espelho e diz ”hoje estou com depressão”. Trata-se de uma doença severa, que te destrói em pedacinhos todos os dias e atravessa anos, até décadas e, muito provavelmente, a sua vida inteira.

Pra mim, eu sempre tive depressão. Desde nova, já sabia conviver muito mais com sentimentos tristes do que com ideais belos de felicidade. A verdade é que sempre fui uma menina sozinha, de pouquíssimos amigos, que preferia continuar na minha, mas também quando estava entre várias pessoas, elas me cansavam muito facilmente. Porque eu sou difícil de conviver e isso é fato. E em incontáveis momentos do dia, nem eu me aguento. Logo, ninguém tem a obrigação de me aguentar. Eu também nunca aprendi o que era falar sobre mim de uma maneira, autenticamente, positiva. Sempre fui pessimista. Sempre. Não tenho tendência para forçar a alegria. Ou estou feliz ou não estou. Não há meio termo aqui.

A minha depressão é uma luta mais do que diária. É uma montanha-russa que me dá enjoo quase que o tempo todo. Eu oscilo entre momentos melhorzinhos e o total fundo do poço (até mais além que isso). Mas claro, tem muita gente por aí que diz que tudo é vitimismo da minha parte. Porque, óbvio, é bem simples você julgar e menosprezar a dor alheia quando não é você que a sente na pele, nas entranhas, por entre cada célula. Pois você dizer que me faço de vítima, não me faz sofrer menos. Seria ótimo se isso acontecesse e eu agradeceria até, mas minha depressão não vira ”normalidade” quando me pedem pra sorrir mais ou pra, simplesmente, seguir em frente. Meu estômago revira com essa gente cheia de conselhos, de bem com a vida, que ao invés de ir lá viver sua vidinha, fica jogando lição de moral para quem não pediu lição alguma.

Viver com depressão é estar numa guerra onde você sabe que as chances de sair vitoriosa são mínimas. Viver com depressão é querer, na maior parte da semana, sequer colocar os pés pra fora da cama. Mas eu tenho que sair, tenho que ir pro estágio, tenho que ir pra aula, mesmo com a vontade seja inexistente e peso do mundo só me jogue pra baixo. Só que viver com depressão é também não estar limitada aos estereótipos. Viver com depressão é também querer sair todos os dias. É querer apenas ver o nascer do sol. É querer ver gente e querer também não ver ninguém. Viver com depressão é ser um vulcão, que pode (e vai) entrar em erupção a qualquer instante. Não toca em mim, mas não me largue. Me deixa em paz, mas não me deixa, totalmente, só. Além de tudo isso, viver com depressão é machucar as pessoas sem nem perceber a gravidade do que fez, pois você estava sendo apenas você. Em estado de ebulição, mas você. Não quero dizer que pessoas com depressão não devem ser responsabilizadas por seus atos. Não é isso. Mas somos inconstantes e não aquele manual pronto que muitos juram conhecer muito bem. Você só conhece verdadeiramente a doença, quando a tem ou convive, de maneira bem próxima, com alguém que carrega tamanho fardo.

Como sou uma só, um ser humano passível de falhas, eu falo da MINHA relação com a depressão. Não posso falar de como os outros enfrentam e lidam com a doença. Eu relato e desabafo só sobre o que eu sei e sinto. E na maioria das vezes, por mais que seja complicado escancarar detalhes tão íntimos meus, eu tenho tal necessidade. Tornar minha dor pública até que a cicatriza um pouco, aquilo que tanto corrói. Eu tenho que escrever. Eu tenho que ser lida. Eu tenho que ser, minimamente, entendida.

Uma vez perguntaram se os meus sorrisos nas fotos eram verdadeiros. Porque como eu tenho depressão, eu deveria estar chorando direto, não é? Por que as pessoas são tão previsíveis assim? Eu posso sorrir ou eu posso ficar com a cara fechada e, ainda sim, vou continuar a depressão. Sinto que existe um senso comum muito forte, que gosta de nutrir ideias bem equivocadas sobre a doença. Quer saber a realidade sobre a depressão? Escute uma pessoa que carrega esse mal nas costas. Mas escute mesmo. Seja mente aberta. Tire todos os seus pré-conceitos e comece a criar empatia pelos outros. Mas também, caso não queira fazer isso, é só continuar sendo o babaca ignorante que segue repetindo que alguém com depressão não se cura porque não quer. Lógico, por que raios não pensei nisso antes? Depressão é uma roupa que coloco e tiro quando bem me der na telha.

Por mais que os pensamentos ruins sobre mim e sobre o mundo que me cerca insistam em me perseguir, eu vou crescendo com meus erros, com minhas lágrimas derramadas. Eu convivo com um sentimento inegável de cansaço existencial, mas tenho consciência que preciso resistir. Que frente tudo que já vivi é ato de revolução seguir sem me deixar abater por completo. A Herlene de meses atrás se desmancharia com um sopro. A Herlene de hoje permanece firme mesmo diante o furacão.

foto por Clemilton Barreto.

Pelo direito do gozo feminino escorrer livre

Clitóris, vagina, vulva, ureta, ânus, grandes e pequenos lábios. São vários os nomes, mas a verdade, mais do que sincera, é que a ordem dos fatores não altera o prazer. Enfia o dedo, só um pouquinho. Não, vai mais, coloca inteiro. Mais de um. Ainda está pouco. Usa um chuveirinho, porque praticidade é tudo, mas também o famoso consolo pode ajudar. Não esqueça que a lubrificação é essencial. Seja natural ou artificial. Vibrador, pênis de plástico, ou como bem quiser chamar. Esfrega. Massageia. Acaricia. Não seja tímida.

Você já ouviu falar em masturbação feminina? Pode parecer coisa de outro mundo, se você for um ser conservador e fundamentalista, mas mulher se masturba sim, senhor. Você tem algum problema com isso? Se o tema te causa algum espanto ou coisa pior, melhor rever seus conceitos que ditam que o pleno prazer merece ser usufruído dependendo do gênero da pessoa.

Não pretendo fazer deste texto uma espécie de guia ou manual pronto e acabado sobre masturbação feminina, até porque disso a internet já está cheia. Muitos procuram ‘‘ensinar’’ como e onde fazer, da maneira mais escondida, como se o ato da masturbação fosse pecado para a mulher que o pratica. Proporcionar-se prazer é pecado? Quem disse isso? A sua religião? A sua igreja? Diga-me o endereço para que eu fique bem longe dela.

créditos na imagem.

Precisamos de mais gente disposta a conscientizar e empoderar nossas mulheres sobre a real importância da masturbação feminina e, acima de tudo, da descoberta dos seus próprios corpos. Estímulos e auto-conhecimento são termos norteadores aqui. Até um estudo da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, já comprovou que a masturbação reduz o estresse, as cólicas, o risco de diabetes, a depressão, melhora o sistema imunológico e ajuda a fortalecer a musculatura vaginal (o que aumenta o prazer e diminui a incontinência urinária).

E por que não costumamos ouvir nossas amigas conversando, abertamente, sobre siririca (outro nome para masturbação feminina)? Só homem que pode ‘‘bater punheta’’ para ser feliz e saudável? Punheta é tema de mesa de bar, escritório, bate-papo virtual, vai parar na tv, no cinema, é exposta pela publicidade em todos os cantos das cidades. E a siririca? Quem fala sobre isso sem o medo de ser julgada? Por que a balança só pesa para um lado? Chega de tacharem nossos corpos tão somente por partes, como num açougue. Chega de nos reduzirem a ‘‘órgão reprodutor feminino’’. Não somos máquina de procriação. Pela liberdade do nosso gozo puro e viscoso! Pelo grito estridente do nosso orgasmo tão intimo e pessoal!

Por que um beijo te incomoda tanto?

(TV Globo/Divulgação).

Na semana passada, a Rede Globo estreou a novela Babilônia e já causou aquele rebuliço pela internet e, principalmente, por todo o país. Confesso que faz muito tempo que não assisto novela da toda poderosa emissora brasileira, mas seria impossível negar tamanha estreia que chegou pisoteando os valores da tão defendida e, ao mesmo tempo, hipócrita ‘‘família tradicional brasileira’’ (lê-se aqui grupo de pessoas que se acham superiores por serem cheios de preconceitos e integrarem a fórmula excludente de família como, necessariamente, homem + mulher + filhinhos).

A questão é que logo em seu primeiro capitulo Babilônia exibiu um digno beijo entre as atrizes consagradas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Sim, até parece mentira, mas é isso mesmo que você leu. Vou até explicar em detalhes, para não restar dúvidas: A Rede Globo de Televisão, já tão conhecida por seus preconceitos velados, seus estereótipos (re)mastigadas e tudo de ruim que há começou uma novela com um beijo entre duas mulheres e senhoras de idade, que fogem do típico padrão de fetiche masculino perante às mulheres lésbicas.

E aqui, mais uma vez, temos uma prova de que representatividade nunca foi tão fundamental como numa época em que a intolerância corre solta para todas as bocas, dedos ferozes (na internet, essencialmente) e os demais ambientes da vida em sociedade. Porque se alguém não se encaixa na fôrma estreita de alguns ‘‘seres humanos’’, logo é considerado um ser errado, que está indo contra a lei de deus. Mas que deus? A dura verdade é que muita gente deveria, pelo menos, começar a entender que a sua religião não é a base incontestável para o resto do mundo. Você acredita? Tudo bem. Está no seu direito, mas isso acaba quando você ousa ferir o direito do outro, lhe dizendo como ele deve ou não agir ou ainda disfarçando seu preconceito com um ‘‘eu respeito, mas não aceito, tenho até amigos que são’’. Esse discurso é tão vazio e desonesto (para não dizer adjetivos mais pesados e que continuariam servindo, perfeitamente, para definir tal fala). Porque você não tem que aceitar nada. É a vida do outro. É um direito pleno, da outra pessoa, amar quem ela bem entender, sendo do mesmo sexo ou não. Seja lá quem for. Existindo amor, isso é o que deveria importar acima de qualquer coisa.

Assim, engula sua ignorância desmedida e tente ser mais sensato. Duas senhoras se beijaram em horário nobre? Beijaram e espero, sinceramente, que se beijem muito mais. Não é só pela quantidade de beijos ou como isso vai afetar quem não suporta ver o diferente na TV e sim para mostrar que a diversidade existe na vida real para muito além dos rótulos e que ela precisa ser estampada nos televisores de todos os brasileiros, para que, de alguma maneira, quem não sente acolhido entre os seus, passe a enxergar que não está só e que não precisa se esconder de ninguém, negando assim sua existência.

Então, surge o questionamento: Será mesmo que foi só um beijo lésbico (que nessa altura do campeonato, nem deveríamos estar fazendo mais este tipo de distinção, porque tudo é beijo) que incomodou tanto a tal ‘‘família tradicional brasileira’’? Não adianta mais disfarçarem um tamanho incomodo com o blablabla de ‘‘ai o mundo está perdido,as crianças não podem ver isso’’. Gente, por favor! Parem de achar que homossexualidade é doença e que ‘‘transmite’’ assim, por osmose ou sei lá mais o que imaginam. Isso é ridículo. É desrespeitoso. Um beijo entre pessoas do mesmo sexo na televisão não causa mal nenhum a ninguém. E se causa em você, melhor abrir a mente e se perguntar se o problema todo não está em ti.

Por essas e muitas outras é importantíssimo jamais parar de ecoar o grito de luta:

Chega de lesbofobia! Chega de preconceito!