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Não adianta ser por Dilma e chamar Janaína de louca

Com a divulgação da capa da ISTOÉ com a presidente Dilma, eu já tinha todo um texto em mente pra falar sobre isso, mas o rumo da coisa teve que ser outro depois que viralizou na noite de segunda-feira (04), o vídeo da jurista Janaína Paschoal, uma das autoras do processo de Impeachment da presidente e principalmente, sobre a forma como toda a galera que se mostrou na linha de frente para defender Dilma por ser tratada como louca, não pensou duas vezes ao chamar Janaína de louca e coisas ainda piores.

Deixando evidente que não estou aqui para corroborar com o que foi dito ou não por Janaína, muito menos seu discurso reacionário, que como foi pontuada logo após sua presença na Comissão Especial do Impeachment semana passada, parecia de quem muito almeja ser deputada em 2018.

O problema está na repercussão. Em um dia defendemos que Dilma não é louca, mas Janaína é. Como assim?

Toda essa hipocrisia que só mostra que muitos não estão por Dilma, por ela ser mulher e por essa questão de gênero estar falando mais alto que qualquer entrave político, mas que estão tão somente pelo governo e por um partido. Eu me recuso a compactuar com isso. Estou por Dilma, estou por Janaína e por quem mais for tachada como louca nessa sociedade que condena mulheres, simplesmente, por serem mulheres.

A capa da ISTOÉ foi desrespeitosa? Lógico que foi. Com um projeto gráfico de bater qualquer filme barato de terror trash? Também. Mas ainda sim não adianta estar de um lado por essa razão e agir tal qual (e talvez mais grave ainda) com a Janaína Paschoal, por ela representar a oposição. Tamanha dicotomia não justifica fortificar machismo e misoginia.

Ainda sim, vocês acham mesmo, que se não fosse a presidenta do Brasil, Dilma, uma mulher, o veículo teria produzido a capa como aconteceu? Não precisa nem racionar muito para saber a resposta. Basta usar da sensatez. Somos bombardeados, dia após dia, por uma grande mídia que não respeita a governante maior do país, muito menos, as mulheres e sem falar da ética, que, para eles, sequer existe. Não há o que justifique tamanhos feitos, com essa de que é por conta da crise política ou coisa do tipo. Não sejamos ingênuos. Não nos deixemos levar por uma capa ou uma manchete “bombástica”. Isso é sensacionalismo. Puro. Nojento. E não nos faz rir. Eu, pelo menos, não vejo graça nenhuma nisso.

A ISTOÉ fez uso de uma tática nada recente, mas bastante corriqueira, para invalidar uma mulher, seja qualquer for a posição que ela ocupe na sociedade. Chama-se GASLIGHTING, definido pelo coletivo Think Olga , como “uma violência emocional que se dá por meio de manipulação psicológica e leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. ”

Esta forma de violência contra as mulheres costuma ser mais evidenciada quando se trata de relacionamentos românticos, mas pode ser, facilmente, expandida à qualquer ação ou atitude para personificar uma mulher como a própria loucura. Tal ideia está mais inserida como senso comum do que pela alcunha de gaslighting. Afinal, sob a lógica de submissão que nos é imposta, basta desvirtuar do que nos é esperado para que sejamos consideradas loucas, histéricas e assim, sumariamente, desacreditadas perante tudo e todos.

Pode até soar como bobagem para quem não faz a mínima noção do quão forte esta violência é e no quanto torna-se difícil reverter suas consequências (para não dizer, impossível). Até porque, uma vez dada como “a louca”, a mulher carregará esta sombra para onde quer que ela vá e se este mesmo rótulo sair em letras garrafais num veículo de comunicação de circulação nacional, as proporções extrapolam a imaginação mais fértil.

Não importa se você é da grande mídia ou um indíviduo fazendo graça no Facebook. Chamar uma mulher de louca, como o único intituito de desqualificá-la não é argumento pra nada e não te faz superior à ninguém. Principalmente, se você for homem.

Meus desejos feministas para 2016

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não sei de quem é a foto. se souber, avisa aí.

As pessoas costumam fazer suas listas de desejos para o ano que vai começar no finalzinho do ano anterior, mas como eu gosto mesmo é de nadar contra a corrente, farei uma lista de desejos bem especial com 2016 já por aqui.

Resolvi não fazer aquela lista de sempre, com coisas tão somente sobre mim e pronto. Inspirada por esta postagem aqui, vou elencar abaixo alguns dos meus principais desejos para um ano de 2016, cada vez mais, feminista, onde possamos lutar muito mais pelos direitos das mulheres e de todas as classes oprimidas e massacradas por este sistema patriarcal vigente.

– QUE AS PESSOAS PAREM DE ACHAR QUE FEMINISMO E MACHISMO SÃO OPOSTOS

Algo muito comum, para quem não está inserido dentro do movimento feminista, que não o conhece minimamente ou com o intuito de tão somente invalidá-lo é afirmar que este refere-se à uma oposição do que é considerado machismo. Só que isso não passa do mais completo “engano” (para não dizer desserviço ou coisa pior).

Feminismo e machismo nem de longe podem ser relacionados desta forma, já que significam coisas, COMPLETAMENTE, distintas.

Machismo: É um sistema de opressão que considera as mulheres INFERIORES aos homens só porque são MULHERES. O machismo silencia, massacra, violenta – de todas as formas possíveis – além de, principal e infelizmente, ser o responsável-mor pela morte de mulheres todos os dias.

Feminismo: Em resumo, trata-se de um movimento que luta com e pelas mulheres. Pelo direito delas sobre a própria vida, seus corpos e suas escolhas. Respeita-se aqui a diversidade dos sujeitos, além de buscar a equidade (uma espécie de igualdade, mas que leva em consideração as diferenças de ambos) entre homens e mulheres.

QUE A CULTURA DO ESTUPRO SEJA ENTENDIDA COMO UMA REALIDADE QUE DEVE SER COMBATIDA

Sei que ninguém vai acordar num fatídico dia tendo total consciência disso, mas que, pelo menos, a gente pare de sair por aí reproduzindo coisas nada a ver, como por exemplo, que uma mulher foi estuprada porque estava com uma roupa curta. Gente, por favor, ISSO NÃO EXISTE. Sabe quais os únicos culpados por um estupro? Os estupradores. É essa cultura do estupro que, de certa forma, legitima que as pessoas digam tal atrocidade e que os outros levem isso à sério.

A cultura do estupro está mais presente no cotidiano da sociedade do que podemos sequer pensar. É quando um cara acredita que pode dar em cima de uma CRIANÇA porque ela “parece” mulher. Ou quando uma mulher não pode voltar sozinha pra casa à noite, porque caso aconteça algo com ela, ela será vista como culpada, porque estava sozinha numa rua escura. É também quando uma mulher não pode beber muito numa balada, porque, claro, ela “está pedindo”. Isso de sempre culpar mulheres vítimas de violência sexual também é algo legitimado pela tal cultura do estupro. Essa mesma cultura que estampa peças publicitárias objetivando mulheres das mais repugnantes maneiras. Ou deixa personagens femininas seminuas em jogos de vídeo game. A lista é imensa.

– QUE DEBATER SOBRE ABORTO SEJA ALGO POSSÍVEL

É de comum acordo que quando o tema aborto surge numa conversa, logo percebe-se pessoas revirando os olhos, prontas para atacar qualquer um que se diga pela vida das mulheres.

O aborto é tido como polêmica, porque está diretamente relacionado com as mulheres e seus corpos. Afinal, vivemos numa sociedade que obriga, veementemente, mulheres a serem mães (até se a gravidez tiver sido resultado de estupro), mas quando as crianças nascem e crescem é essa mesma sociedade que não está nem aí para aquela mãe e seu filho, pois a preocupação agora é reduzir a maioridade penal. Prioridades. Sempre as prioridades do Estado e seus aliados.

Lutemos por um 2016 em que a nós possamos debater a questão com mais liberdade, com mais direito de fala, de explicar didaticamente, de conscientizar. É total balela quem, do alto de sua ignorância, diz que se o aborto for “legalizado”, as mulheres vão sair abortando desenfreadamente. Como se isso fosse um lindo hobby, não é? Tamanha afirmação só pode sair de quem não se importa com ninguém, além do seu próprio umbigo.

Qualquer mulher deve ser, plenamente, dona de si. Ela quem decide tudo no que diz ao seu corpo. Não é Estado. Muito menos, igreja. Se a gente parar só um pouquinho de ser tão hipócrita e pensar a realidade, mulheres abortam quer você aceitando ou não. A questão é que as ricas abortam, mas as mulheres negras e pobres são as que mais morrem em verdadeiros açougues. Pela despenalização do aborto sim, senhor!

– QUE A VIOLÊNCIA CONTRA MULHER SEJA VISTA COMO O PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA E NÃO MAIS COMO O FAMIGERADO “ EM BRIGA DE MARIDO E MULHER, NINGUÉM METE A COLHER”

Nenhuma mulher tem que porque sofrer sozinha com a violência. Elas precisam ser ouvidas e entendidas. Elas necessitam, urgentemente, de todo o apoio e, obviamente, auxilio jurídico para que tenham a oportunidade de seguir em frente, sabendo que não estão abandonadas, que serão tomadas as ações cabíveis para que suas vidas sejam preservadas, acima de toda e qualquer outra coisa.

Os números de mortes de mulheres por violência domésticas são perturbadores. O “Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil” (aqui) está aí para nos mostrar isso por um ângulo bem nítido. E, na minha concepção, essa ideia de combate da violência contra as mulheres deve emergir da base, de cada indivíduo da sociedade. Enquanto essa consciência não for, minimamente, alcançada, continuaremos repetindo nojeiras como “ela só pode gostar de apanhar”, “por que não fez nada?”, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” e daí pra pior.

Então, a lista de desejos feministas para 2016 é bem maior, mas tentei listar algumas das pautas mais evidentes dentro de um âmbito mais geral. Reafirmo que a luta deve ser diária. A militância não tem hora nem lugar. A gente é feminista na internet e fora dela, porque as coisas como estão, não podem continuar. É fácil? Em hipótese alguma, mas a causa é maior que todas nós.

Da minha depressão quem sabe sou eu

Falar sobre depressão é, de certo modo, difícil pra mim, porque é falar sobre quem eu sou. Principalmente, agora.

Eu fui diagnosticada com um quadro depressivo grave e faço tratamento psiquiátrico tem alguns meses. Mas sabe, depressão não é algo que a gente acorda numa bela manhã, olha para o espelho e diz ”hoje estou com depressão”. Trata-se de uma doença severa, que te destrói em pedacinhos todos os dias e atravessa anos, até décadas e, muito provavelmente, a sua vida inteira.

Pra mim, eu sempre tive depressão. Desde nova, já sabia conviver muito mais com sentimentos tristes do que com ideais belos de felicidade. A verdade é que sempre fui uma menina sozinha, de pouquíssimos amigos, que preferia continuar na minha, mas também quando estava entre várias pessoas, elas me cansavam muito facilmente. Porque eu sou difícil de conviver e isso é fato. E em incontáveis momentos do dia, nem eu me aguento. Logo, ninguém tem a obrigação de me aguentar. Eu também nunca aprendi o que era falar sobre mim de uma maneira, autenticamente, positiva. Sempre fui pessimista. Sempre. Não tenho tendência para forçar a alegria. Ou estou feliz ou não estou. Não há meio termo aqui.

A minha depressão é uma luta mais do que diária. É uma montanha-russa que me dá enjoo quase que o tempo todo. Eu oscilo entre momentos melhorzinhos e o total fundo do poço (até mais além que isso). Mas claro, tem muita gente por aí que diz que tudo é vitimismo da minha parte. Porque, óbvio, é bem simples você julgar e menosprezar a dor alheia quando não é você que a sente na pele, nas entranhas, por entre cada célula. Pois você dizer que me faço de vítima, não me faz sofrer menos. Seria ótimo se isso acontecesse e eu agradeceria até, mas minha depressão não vira ”normalidade” quando me pedem pra sorrir mais ou pra, simplesmente, seguir em frente. Meu estômago revira com essa gente cheia de conselhos, de bem com a vida, que ao invés de ir lá viver sua vidinha, fica jogando lição de moral para quem não pediu lição alguma.

Viver com depressão é estar numa guerra onde você sabe que as chances de sair vitoriosa são mínimas. Viver com depressão é querer, na maior parte da semana, sequer colocar os pés pra fora da cama. Mas eu tenho que sair, tenho que ir pro estágio, tenho que ir pra aula, mesmo com a vontade seja inexistente e peso do mundo só me jogue pra baixo. Só que viver com depressão é também não estar limitada aos estereótipos. Viver com depressão é também querer sair todos os dias. É querer apenas ver o nascer do sol. É querer ver gente e querer também não ver ninguém. Viver com depressão é ser um vulcão, que pode (e vai) entrar em erupção a qualquer instante. Não toca em mim, mas não me largue. Me deixa em paz, mas não me deixa, totalmente, só. Além de tudo isso, viver com depressão é machucar as pessoas sem nem perceber a gravidade do que fez, pois você estava sendo apenas você. Em estado de ebulição, mas você. Não quero dizer que pessoas com depressão não devem ser responsabilizadas por seus atos. Não é isso. Mas somos inconstantes e não aquele manual pronto que muitos juram conhecer muito bem. Você só conhece verdadeiramente a doença, quando a tem ou convive, de maneira bem próxima, com alguém que carrega tamanho fardo.

Como sou uma só, um ser humano passível de falhas, eu falo da MINHA relação com a depressão. Não posso falar de como os outros enfrentam e lidam com a doença. Eu relato e desabafo só sobre o que eu sei e sinto. E na maioria das vezes, por mais que seja complicado escancarar detalhes tão íntimos meus, eu tenho tal necessidade. Tornar minha dor pública até que a cicatriza um pouco, aquilo que tanto corrói. Eu tenho que escrever. Eu tenho que ser lida. Eu tenho que ser, minimamente, entendida.

Uma vez perguntaram se os meus sorrisos nas fotos eram verdadeiros. Porque como eu tenho depressão, eu deveria estar chorando direto, não é? Por que as pessoas são tão previsíveis assim? Eu posso sorrir ou eu posso ficar com a cara fechada e, ainda sim, vou continuar a depressão. Sinto que existe um senso comum muito forte, que gosta de nutrir ideias bem equivocadas sobre a doença. Quer saber a realidade sobre a depressão? Escute uma pessoa que carrega esse mal nas costas. Mas escute mesmo. Seja mente aberta. Tire todos os seus pré-conceitos e comece a criar empatia pelos outros. Mas também, caso não queira fazer isso, é só continuar sendo o babaca ignorante que segue repetindo que alguém com depressão não se cura porque não quer. Lógico, por que raios não pensei nisso antes? Depressão é uma roupa que coloco e tiro quando bem me der na telha.

Por mais que os pensamentos ruins sobre mim e sobre o mundo que me cerca insistam em me perseguir, eu vou crescendo com meus erros, com minhas lágrimas derramadas. Eu convivo com um sentimento inegável de cansaço existencial, mas tenho consciência que preciso resistir. Que frente tudo que já vivi é ato de revolução seguir sem me deixar abater por completo. A Herlene de meses atrás se desmancharia com um sopro. A Herlene de hoje permanece firme mesmo diante o furacão.

foto por Clemilton Barreto.