Arquivo do autor:Herlene Santos

Não adianta ser por Dilma e chamar Janaína de louca

Com a divulgação da capa da ISTOÉ com a presidente Dilma, eu já tinha todo um texto em mente pra falar sobre isso, mas o rumo da coisa teve que ser outro depois que viralizou na noite de segunda-feira (04), o vídeo da jurista Janaína Paschoal, uma das autoras do processo de Impeachment da presidente e principalmente, sobre a forma como toda a galera que se mostrou na linha de frente para defender Dilma por ser tratada como louca, não pensou duas vezes ao chamar Janaína de louca e coisas ainda piores.

Deixando evidente que não estou aqui para corroborar com o que foi dito ou não por Janaína, muito menos seu discurso reacionário, que como foi pontuada logo após sua presença na Comissão Especial do Impeachment semana passada, parecia de quem muito almeja ser deputada em 2018.

O problema está na repercussão. Em um dia defendemos que Dilma não é louca, mas Janaína é. Como assim?

Toda essa hipocrisia que só mostra que muitos não estão por Dilma, por ela ser mulher e por essa questão de gênero estar falando mais alto que qualquer entrave político, mas que estão tão somente pelo governo e por um partido. Eu me recuso a compactuar com isso. Estou por Dilma, estou por Janaína e por quem mais for tachada como louca nessa sociedade que condena mulheres, simplesmente, por serem mulheres.

A capa da ISTOÉ foi desrespeitosa? Lógico que foi. Com um projeto gráfico de bater qualquer filme barato de terror trash? Também. Mas ainda sim não adianta estar de um lado por essa razão e agir tal qual (e talvez mais grave ainda) com a Janaína Paschoal, por ela representar a oposição. Tamanha dicotomia não justifica fortificar machismo e misoginia.

Ainda sim, vocês acham mesmo, que se não fosse a presidenta do Brasil, Dilma, uma mulher, o veículo teria produzido a capa como aconteceu? Não precisa nem racionar muito para saber a resposta. Basta usar da sensatez. Somos bombardeados, dia após dia, por uma grande mídia que não respeita a governante maior do país, muito menos, as mulheres e sem falar da ética, que, para eles, sequer existe. Não há o que justifique tamanhos feitos, com essa de que é por conta da crise política ou coisa do tipo. Não sejamos ingênuos. Não nos deixemos levar por uma capa ou uma manchete “bombástica”. Isso é sensacionalismo. Puro. Nojento. E não nos faz rir. Eu, pelo menos, não vejo graça nenhuma nisso.

A ISTOÉ fez uso de uma tática nada recente, mas bastante corriqueira, para invalidar uma mulher, seja qualquer for a posição que ela ocupe na sociedade. Chama-se GASLIGHTING, definido pelo coletivo Think Olga , como “uma violência emocional que se dá por meio de manipulação psicológica e leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. ”

Esta forma de violência contra as mulheres costuma ser mais evidenciada quando se trata de relacionamentos românticos, mas pode ser, facilmente, expandida à qualquer ação ou atitude para personificar uma mulher como a própria loucura. Tal ideia está mais inserida como senso comum do que pela alcunha de gaslighting. Afinal, sob a lógica de submissão que nos é imposta, basta desvirtuar do que nos é esperado para que sejamos consideradas loucas, histéricas e assim, sumariamente, desacreditadas perante tudo e todos.

Pode até soar como bobagem para quem não faz a mínima noção do quão forte esta violência é e no quanto torna-se difícil reverter suas consequências (para não dizer, impossível). Até porque, uma vez dada como “a louca”, a mulher carregará esta sombra para onde quer que ela vá e se este mesmo rótulo sair em letras garrafais num veículo de comunicação de circulação nacional, as proporções extrapolam a imaginação mais fértil.

Não importa se você é da grande mídia ou um indíviduo fazendo graça no Facebook. Chamar uma mulher de louca, como o único intituito de desqualificá-la não é argumento pra nada e não te faz superior à ninguém. Principalmente, se você for homem.

Meus desejos feministas para 2016

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não sei de quem é a foto. se souber, avisa aí.

As pessoas costumam fazer suas listas de desejos para o ano que vai começar no finalzinho do ano anterior, mas como eu gosto mesmo é de nadar contra a corrente, farei uma lista de desejos bem especial com 2016 já por aqui.

Resolvi não fazer aquela lista de sempre, com coisas tão somente sobre mim e pronto. Inspirada por esta postagem aqui, vou elencar abaixo alguns dos meus principais desejos para um ano de 2016, cada vez mais, feminista, onde possamos lutar muito mais pelos direitos das mulheres e de todas as classes oprimidas e massacradas por este sistema patriarcal vigente.

– QUE AS PESSOAS PAREM DE ACHAR QUE FEMINISMO E MACHISMO SÃO OPOSTOS

Algo muito comum, para quem não está inserido dentro do movimento feminista, que não o conhece minimamente ou com o intuito de tão somente invalidá-lo é afirmar que este refere-se à uma oposição do que é considerado machismo. Só que isso não passa do mais completo “engano” (para não dizer desserviço ou coisa pior).

Feminismo e machismo nem de longe podem ser relacionados desta forma, já que significam coisas, COMPLETAMENTE, distintas.

Machismo: É um sistema de opressão que considera as mulheres INFERIORES aos homens só porque são MULHERES. O machismo silencia, massacra, violenta – de todas as formas possíveis – além de, principal e infelizmente, ser o responsável-mor pela morte de mulheres todos os dias.

Feminismo: Em resumo, trata-se de um movimento que luta com e pelas mulheres. Pelo direito delas sobre a própria vida, seus corpos e suas escolhas. Respeita-se aqui a diversidade dos sujeitos, além de buscar a equidade (uma espécie de igualdade, mas que leva em consideração as diferenças de ambos) entre homens e mulheres.

QUE A CULTURA DO ESTUPRO SEJA ENTENDIDA COMO UMA REALIDADE QUE DEVE SER COMBATIDA

Sei que ninguém vai acordar num fatídico dia tendo total consciência disso, mas que, pelo menos, a gente pare de sair por aí reproduzindo coisas nada a ver, como por exemplo, que uma mulher foi estuprada porque estava com uma roupa curta. Gente, por favor, ISSO NÃO EXISTE. Sabe quais os únicos culpados por um estupro? Os estupradores. É essa cultura do estupro que, de certa forma, legitima que as pessoas digam tal atrocidade e que os outros levem isso à sério.

A cultura do estupro está mais presente no cotidiano da sociedade do que podemos sequer pensar. É quando um cara acredita que pode dar em cima de uma CRIANÇA porque ela “parece” mulher. Ou quando uma mulher não pode voltar sozinha pra casa à noite, porque caso aconteça algo com ela, ela será vista como culpada, porque estava sozinha numa rua escura. É também quando uma mulher não pode beber muito numa balada, porque, claro, ela “está pedindo”. Isso de sempre culpar mulheres vítimas de violência sexual também é algo legitimado pela tal cultura do estupro. Essa mesma cultura que estampa peças publicitárias objetivando mulheres das mais repugnantes maneiras. Ou deixa personagens femininas seminuas em jogos de vídeo game. A lista é imensa.

– QUE DEBATER SOBRE ABORTO SEJA ALGO POSSÍVEL

É de comum acordo que quando o tema aborto surge numa conversa, logo percebe-se pessoas revirando os olhos, prontas para atacar qualquer um que se diga pela vida das mulheres.

O aborto é tido como polêmica, porque está diretamente relacionado com as mulheres e seus corpos. Afinal, vivemos numa sociedade que obriga, veementemente, mulheres a serem mães (até se a gravidez tiver sido resultado de estupro), mas quando as crianças nascem e crescem é essa mesma sociedade que não está nem aí para aquela mãe e seu filho, pois a preocupação agora é reduzir a maioridade penal. Prioridades. Sempre as prioridades do Estado e seus aliados.

Lutemos por um 2016 em que a nós possamos debater a questão com mais liberdade, com mais direito de fala, de explicar didaticamente, de conscientizar. É total balela quem, do alto de sua ignorância, diz que se o aborto for “legalizado”, as mulheres vão sair abortando desenfreadamente. Como se isso fosse um lindo hobby, não é? Tamanha afirmação só pode sair de quem não se importa com ninguém, além do seu próprio umbigo.

Qualquer mulher deve ser, plenamente, dona de si. Ela quem decide tudo no que diz ao seu corpo. Não é Estado. Muito menos, igreja. Se a gente parar só um pouquinho de ser tão hipócrita e pensar a realidade, mulheres abortam quer você aceitando ou não. A questão é que as ricas abortam, mas as mulheres negras e pobres são as que mais morrem em verdadeiros açougues. Pela despenalização do aborto sim, senhor!

– QUE A VIOLÊNCIA CONTRA MULHER SEJA VISTA COMO O PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA E NÃO MAIS COMO O FAMIGERADO “ EM BRIGA DE MARIDO E MULHER, NINGUÉM METE A COLHER”

Nenhuma mulher tem que porque sofrer sozinha com a violência. Elas precisam ser ouvidas e entendidas. Elas necessitam, urgentemente, de todo o apoio e, obviamente, auxilio jurídico para que tenham a oportunidade de seguir em frente, sabendo que não estão abandonadas, que serão tomadas as ações cabíveis para que suas vidas sejam preservadas, acima de toda e qualquer outra coisa.

Os números de mortes de mulheres por violência domésticas são perturbadores. O “Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil” (aqui) está aí para nos mostrar isso por um ângulo bem nítido. E, na minha concepção, essa ideia de combate da violência contra as mulheres deve emergir da base, de cada indivíduo da sociedade. Enquanto essa consciência não for, minimamente, alcançada, continuaremos repetindo nojeiras como “ela só pode gostar de apanhar”, “por que não fez nada?”, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” e daí pra pior.

Então, a lista de desejos feministas para 2016 é bem maior, mas tentei listar algumas das pautas mais evidentes dentro de um âmbito mais geral. Reafirmo que a luta deve ser diária. A militância não tem hora nem lugar. A gente é feminista na internet e fora dela, porque as coisas como estão, não podem continuar. É fácil? Em hipótese alguma, mas a causa é maior que todas nós.

Sobre “Que Horas Ela Volta?” e como deus é negra, pobre e mãe solteira

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via Revista Cinética

Antes de qualquer coisa, já quero indicar o texto da maravilhosa Stephanie Ribeiro sobre a produção em questão. “Afinal, o que leva os brancos a adorarem que horas ela volta?” traz uma crítica bastante fundamental sobre a sociedade brasileira e o racismo velado no qual nos afundamos cada vez mais. O feminismo deve sim ter como um de seus pilares, a luta constante contra o racismo, evidenciando que as protagonistas de tamanha luta são as mulheres negras, já tão silenciadas ao longos da história da humanidade.

Acabei assistindo “Que Horas Ela Volta?” só um tempo depois que este ganhou destaque pelo Brasil e no mundo. Em seus primeiros minutos, a produção já me ganhou e, para variar, vi crescer em mim aquela necessidade de escrever as minhas impressões do filme. O problema é que, enquanto mulher branca privilegiada neste país de desigualdades sociais mais do que explícitas, eu tenho que saber, conscientemente, do meu devido lugar de fala. Mas isso nem sempre é tão simples quanto parece. Na minha cabeça, eu posso até ter as melhores intenções do mundo para problematizar um filme que trata da relação de classe entre empregadas domésticas e patrões, mas se tais problematizações soarem de forma desagradável para a população negra – mulheres negras, em especial – eu já terei cometido um completo desserviço à militância feminista na qual luto e acredito e, nem de longe, é isso que desejo.

Sendo assim, podemos analisar “Que Horas Ela Volta?” sob a ótica da urgência, já que nós vivemos num país, onde parece que só através da arte, daquela arte que ganha as telas de cinema com grande repercussão, é que damos conta da essencialidade em se debater temas que são intrínsecos à nossa existência.

O filme não fala só da cozinha e do quartinho dos fundos, que separa patrões (brancos) e domésticas (negras) por verdadeiros abismos sociais. Este é somente o pano de fundo para fazer emergir uma discussão muito maior sobre um Brasil, altamente, separatista, em cada detalhe do dia a dia. Precisamos, imediatamente, olhar para este Brasil com um sincero olhar de crítica, de questionamento, de quem não se conforma nem um pouco com a sujeira que vê por aí. Olhar para este Brasil com aquele olhar de quem não vê beleza alguma em um cara, que dentro do conforto do seu carro com ar-condicionado, tira foto de um menino negro no sinal, que observa sua filha branca sob um vidro fechado. Não há beleza alguma em se aproveitar da situação de vulnerabilidade social de um menino negro para ganhar like no Facebook, moço. Isso não te fez mais humano. Pelo contrário. Vamos parar de querer receber palminha por “ações” que não condizem em nada com quem somos na realidade.

Por mais que pareça, no mínimo, superficial que a gente só consiga trazer questões de verdadeiro cunho crítico e social por meio de filmes ou produções artísticas do tipo, estes, por sua vez, não devem ter seus valores negados. É através destes exemplos, que conseguimos fazer com que o grande público abra um pouco mais os olhos e, principalmente, a mentalidade para o que devemos debater e buscar melhorar e mudar.

Percebo “Que Horas Ela Volta?” como um filme sensível, Anna Muylaert, que, como vi, foi a primeira mulher em 30 anos a representar o Brasil no Oscar. Sim, isso mesmo que você acabou de ler. A PRIMEIRA mulher em TRINTA anos. O que já nos evidencia outra urgência que deve ser também abarcada pelo feminismo: Por que as mulheres diretoras, roteiristas, produtoras de cinema não ganham seu devido reconhecimento? Até parece que não existe mulher fazendo filme, por trás das câmeras, no Brasil.

Mas, ao mesmo tempo, que tal filme carrega este tom sensível em suas escolhas de falas e posicionamento de câmera, ele é pesado, cortante, como uma faca que vai retalhando-nos por inteiro. Confesso eu que raros são os filmes – brasileiros, ainda por cima – que me deixam sem piscar e foi assim que este filme me deixou. A atuação de Regina Casé foi muito coerente, posso destacar, mas o que me fez refletir, ao ler o texto da Stephanie Ribeiro, citado mais assim: Por que Regina Casé? Teria sido a melhor decisão? Ou só mais uma atriz que se aproximasse dos padrões de branquitude e que ainda guardasse uma herança de fisionomia do que é considerado classe baixa, de empregada doméstica no Brasil?

Compreendemos que o filme em si arregaça várias feridas sociais e de classe no país, mas não as revira de fato. Também nos embrulha o estômago, mas continuamos achando normal as negras servirem as brancas, assim como na época das escravas e sinhazinhas. Seguimos entoando o discurso que não existe mais racismo por aqui, enquanto seguramos a bolsa contra o corpo quando vemos o cara negro se aproximar. Comovemos-nos com o filme, mas não paramos de acreditar que todos possuem as mesmas oportunidades ou que tudo bem uma atriz global negra já ter feito quase 30 papéis só como empregada doméstica. Brandamos o “somos todos iguais”, mas somos contra as cotas e gritamos que devemos nutrir uma “consciência humana” acima de tudo. Onde mais guardamos nossa hipocrisia de gente branca privilegiada?

Mais um linchamento virtual dos falsos moralistas

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via FEME

O caso que tem movimentado a internet nos últimos dias é sobre Fabíola e em como, mais uma vez, a sociedade não tolera uma mulher dona de si.

Não pretendo me ater aos detalhes da história em si, porque sobre isso, entre verdades e boatos, as redes sociais já estão abarrotadas. Mas em resumo: Trata-se de MAIS UM CASO em que um homem, “tão dono da verdade absoluta”, se achou em plenos direitos de expor ao máximo uma mulher que, olhem só, ousou trair o tão integro homem. Como ela pode, não é? Ele tinha o direito de se vingar, não acha? Pois é, não… Não tinha direito nenhum.

Ninguém está aqui para passar a mão na cabeça de quem trai. A questão está bem longe de ser sobre traição e vingança. A vida real não é nenhuma novela mexicana da Televisa. O que envolve toda esta história é que Fabíola está passando por este completo rebuliço na sua vida, não por trair o então “parceiro”, mas por ser mulher. E não venha me dizer que isso é só papo de feminista chata ou que merecia o mesmo se fosse um homem, porque esta tal simetria não existe quando falamos dos tratamentos que homens e mulheres recebem perante a sociedade de modo geral.

Vamos, de forma bastante simples, tentar entender:

Quando você escuta as pessoas falarem sobre algum cara que traiu a parceira (namorada, esposa, etc), qual é a primeira palavra que vem a sua mente? Seria algo como fodão? Machão? Garanhão? Algo que se aproxime de termos do tipo, não? Porque, claro, um homem que consegue se relacionar com mais de uma mulher é aquele que deve ter a pica colocada num altar e reverenciada… Trágica realidade.

Agora, imaginemos a mesma situação, só que no lugar de homem, coloquemos uma mulher no foco. Uma mulher que traiu o santo parceiro. Como você a imagina? Ou como você vê as pessoas ao redor falando sobre ela? A puta? A rapariga? A quenga? Aquela que não se dá ao respeito e daí pra BEM pior? Pois é, né. Cadê a tal da simetria nisso?

Continuemos com os exemplos. Falemos então dos que são traídos. O homem assume logo o papel do podre coitado, o corno, ela não devia ter feito isso com ele. Enquanto a mulher… Ah, claro que para ela, sobra-lhe a culpa de “aquela que não conseguiu segurar seu macho”. Percebe a lógica do sistema patriarcal? A mulher sempre irá sucumbir com o peso da culpa sob seus ombros, seja ela culpada de fato OU NÃO. Ao homem, obviamente, resta tão somente atuar com o mocinho, que nunca, em hipótese alguma, faz algo errado ou que mereça ser repreendido.

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via FEME

É sim bem difícil ter que constatar isso. Basta a gente conseguir tirar o olhar tão fixo de cima de nossos próprios privilégios e passar a observar ao redor, que logo percebemos como a realidade funciona na dura prática do dia a dia. Por mais que possa doer, é o melhor que podemos fazer. Sem dúvida.

E ainda diante o caso Fabíola, podemos perceber várias questões que envolvem esta falsa simetria de tratamento entre homens e mulheres. Porque soa bem normal para os caras, principalmente, saírem fazendo as mais diversas piadas sobre a mulher dizer que ia fazer as unhas, quando na verdade ia transar. Só que tudo bem dizer pra sua namorada que você vai bater aquela bolinha com a rapaziada, enquanto vai se encontrar com outra mulher que você também engana, não é? Bem sabedoria popular do ”faça o que digo, mas não faça o que eu faço”. Bem coisa de homem exercendo seu pleno poder de macho alfa.

Mas me deixem contar algo que vai parecer até surpreendente pra vocês: Mulher também tem o TOTAL DIREITO de gostar de sexo, sabiam? Sim! Que louco, não? No mundo ideal, mulher não está aí só pra satisfazer desejo de macho não. Mulher também quer orgasmo. Mulher também precisa sentir o saboroso gostinho do seu próprio gozo. Mas no mundo real, tudo isso não passa de um enorme ultraje. Mulher que gosta de sexo? Puta. Vadia. Puta. Puta. Ainda buscando a tal da simetria desse planeta perfeito, onde dizem que homens e mulheres já são tratados de maneira igualitária.

Sabemos que a temática rende discussões prolongadas, mas uma lição que fica de mais um caso de mulher exposta na internet é que a gente pode lutar todos os dias tentando conscientizar as pessoas que mulher deve ser empoderada sobre seu corpo, suas escolhas e sua vida e, ainda sim, os falsos moralistas continuarão a promover linchamentos – virtuais ou na vida real – de toda e qualquer mulher que tiver a “ousadia” de ser ela mesma.

E mulheres: Não parem! Estamos juntas. Vamos nos defender até que todas sejamos livres!

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Da minha depressão quem sabe sou eu

Falar sobre depressão é, de certo modo, difícil pra mim, porque é falar sobre quem eu sou. Principalmente, agora.

Eu fui diagnosticada com um quadro depressivo grave e faço tratamento psiquiátrico tem alguns meses. Mas sabe, depressão não é algo que a gente acorda numa bela manhã, olha para o espelho e diz ”hoje estou com depressão”. Trata-se de uma doença severa, que te destrói em pedacinhos todos os dias e atravessa anos, até décadas e, muito provavelmente, a sua vida inteira.

Pra mim, eu sempre tive depressão. Desde nova, já sabia conviver muito mais com sentimentos tristes do que com ideais belos de felicidade. A verdade é que sempre fui uma menina sozinha, de pouquíssimos amigos, que preferia continuar na minha, mas também quando estava entre várias pessoas, elas me cansavam muito facilmente. Porque eu sou difícil de conviver e isso é fato. E em incontáveis momentos do dia, nem eu me aguento. Logo, ninguém tem a obrigação de me aguentar. Eu também nunca aprendi o que era falar sobre mim de uma maneira, autenticamente, positiva. Sempre fui pessimista. Sempre. Não tenho tendência para forçar a alegria. Ou estou feliz ou não estou. Não há meio termo aqui.

A minha depressão é uma luta mais do que diária. É uma montanha-russa que me dá enjoo quase que o tempo todo. Eu oscilo entre momentos melhorzinhos e o total fundo do poço (até mais além que isso). Mas claro, tem muita gente por aí que diz que tudo é vitimismo da minha parte. Porque, óbvio, é bem simples você julgar e menosprezar a dor alheia quando não é você que a sente na pele, nas entranhas, por entre cada célula. Pois você dizer que me faço de vítima, não me faz sofrer menos. Seria ótimo se isso acontecesse e eu agradeceria até, mas minha depressão não vira ”normalidade” quando me pedem pra sorrir mais ou pra, simplesmente, seguir em frente. Meu estômago revira com essa gente cheia de conselhos, de bem com a vida, que ao invés de ir lá viver sua vidinha, fica jogando lição de moral para quem não pediu lição alguma.

Viver com depressão é estar numa guerra onde você sabe que as chances de sair vitoriosa são mínimas. Viver com depressão é querer, na maior parte da semana, sequer colocar os pés pra fora da cama. Mas eu tenho que sair, tenho que ir pro estágio, tenho que ir pra aula, mesmo com a vontade seja inexistente e peso do mundo só me jogue pra baixo. Só que viver com depressão é também não estar limitada aos estereótipos. Viver com depressão é também querer sair todos os dias. É querer apenas ver o nascer do sol. É querer ver gente e querer também não ver ninguém. Viver com depressão é ser um vulcão, que pode (e vai) entrar em erupção a qualquer instante. Não toca em mim, mas não me largue. Me deixa em paz, mas não me deixa, totalmente, só. Além de tudo isso, viver com depressão é machucar as pessoas sem nem perceber a gravidade do que fez, pois você estava sendo apenas você. Em estado de ebulição, mas você. Não quero dizer que pessoas com depressão não devem ser responsabilizadas por seus atos. Não é isso. Mas somos inconstantes e não aquele manual pronto que muitos juram conhecer muito bem. Você só conhece verdadeiramente a doença, quando a tem ou convive, de maneira bem próxima, com alguém que carrega tamanho fardo.

Como sou uma só, um ser humano passível de falhas, eu falo da MINHA relação com a depressão. Não posso falar de como os outros enfrentam e lidam com a doença. Eu relato e desabafo só sobre o que eu sei e sinto. E na maioria das vezes, por mais que seja complicado escancarar detalhes tão íntimos meus, eu tenho tal necessidade. Tornar minha dor pública até que a cicatriza um pouco, aquilo que tanto corrói. Eu tenho que escrever. Eu tenho que ser lida. Eu tenho que ser, minimamente, entendida.

Uma vez perguntaram se os meus sorrisos nas fotos eram verdadeiros. Porque como eu tenho depressão, eu deveria estar chorando direto, não é? Por que as pessoas são tão previsíveis assim? Eu posso sorrir ou eu posso ficar com a cara fechada e, ainda sim, vou continuar a depressão. Sinto que existe um senso comum muito forte, que gosta de nutrir ideias bem equivocadas sobre a doença. Quer saber a realidade sobre a depressão? Escute uma pessoa que carrega esse mal nas costas. Mas escute mesmo. Seja mente aberta. Tire todos os seus pré-conceitos e comece a criar empatia pelos outros. Mas também, caso não queira fazer isso, é só continuar sendo o babaca ignorante que segue repetindo que alguém com depressão não se cura porque não quer. Lógico, por que raios não pensei nisso antes? Depressão é uma roupa que coloco e tiro quando bem me der na telha.

Por mais que os pensamentos ruins sobre mim e sobre o mundo que me cerca insistam em me perseguir, eu vou crescendo com meus erros, com minhas lágrimas derramadas. Eu convivo com um sentimento inegável de cansaço existencial, mas tenho consciência que preciso resistir. Que frente tudo que já vivi é ato de revolução seguir sem me deixar abater por completo. A Herlene de meses atrás se desmancharia com um sopro. A Herlene de hoje permanece firme mesmo diante o furacão.

foto por Clemilton Barreto.

A conivência da sociedade com a cultura do estupro‏

Uma das principais discussões da semana nas redes sociais tem sido o caso da Valentina, DOZE ANOS, participante do programa MasterChef Junior (Band), que sofreu com ataques dos mais diversos tipos, de seres nojentos que publicizaram na internet que a estuprariam, como se isso fosse a coisa mais normal do universo.

Será tão difícil de entender que este é mais um reflexo da cultura de estupro, que muitos dizem não existir? Tal cultura que se faz presente no nosso cotidiano de maneira tão latente. Como quando crianças são hipersexualidades em campanhas publicitárias (só o que não falta são casos assim) ou quando parentes colocam meninas de calcinha para dançar músicas de adulto e todos acham aquilo a coisa mais fofa.

É, principalmente, essa mesma cultura do estupro que compactua com toda e qualquer violência que nossas mulheres sofrem desde a infância até a velhice (ou morte, que pode acontecer bem antes, infezlimente). Tal cultura também dá espaço para que homens acreditem que podem fazer piadas e as mais rídiculas brincadeiras com a questão do estupro, como se isso tivesse alguma graça.

Diante da repercussão do caso da menina no MasterChef Junior foi criada a campanha #primeiroassedio, onde mulheres relatavam suas primeiras experiências com assédio e como isso é mais comum do que a gente pode imaginar. Obviamente, a campanha também virou chacota para homens babacas, como o cantor Roger e seu altíssimo QI de babaquice.

E não vamos seguir na ilusão do senso comum, que caras que brincam ou escancaram que estuprariam crianças são doentes, porque isso é minimizar a gravidade da situação. Esses caras não são doentes. Eles são homens, repugnantes, mas homens que juram ter todo e qualquer direito sobre o corpo da mulher, independente dela ter quarenta ou doze anos.

Milhões são as Valentinas que existem por todo o Brasil e sofrem com violência sexual diária e sequer sabem o que aquilo significa. Permanecemos em uma sociedade que é conivente sim com a cultura do estupro, permitindo que esta se alastre por todos os lados, como algo natural. Milhões de Valentinas estão por aí desamparadas, sem ter quem olhe por elas. Precisamos cuidar de nossas meninas, empoderá-las, mostrando que elas não são, em hipótese alguma, culpadas pela violência que sofrem.

Pelo direito do gozo feminino escorrer livre

Clitóris, vagina, vulva, ureta, ânus, grandes e pequenos lábios. São vários os nomes, mas a verdade, mais do que sincera, é que a ordem dos fatores não altera o prazer. Enfia o dedo, só um pouquinho. Não, vai mais, coloca inteiro. Mais de um. Ainda está pouco. Usa um chuveirinho, porque praticidade é tudo, mas também o famoso consolo pode ajudar. Não esqueça que a lubrificação é essencial. Seja natural ou artificial. Vibrador, pênis de plástico, ou como bem quiser chamar. Esfrega. Massageia. Acaricia. Não seja tímida.

Você já ouviu falar em masturbação feminina? Pode parecer coisa de outro mundo, se você for um ser conservador e fundamentalista, mas mulher se masturba sim, senhor. Você tem algum problema com isso? Se o tema te causa algum espanto ou coisa pior, melhor rever seus conceitos que ditam que o pleno prazer merece ser usufruído dependendo do gênero da pessoa.

Não pretendo fazer deste texto uma espécie de guia ou manual pronto e acabado sobre masturbação feminina, até porque disso a internet já está cheia. Muitos procuram ‘‘ensinar’’ como e onde fazer, da maneira mais escondida, como se o ato da masturbação fosse pecado para a mulher que o pratica. Proporcionar-se prazer é pecado? Quem disse isso? A sua religião? A sua igreja? Diga-me o endereço para que eu fique bem longe dela.

créditos na imagem.

Precisamos de mais gente disposta a conscientizar e empoderar nossas mulheres sobre a real importância da masturbação feminina e, acima de tudo, da descoberta dos seus próprios corpos. Estímulos e auto-conhecimento são termos norteadores aqui. Até um estudo da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, já comprovou que a masturbação reduz o estresse, as cólicas, o risco de diabetes, a depressão, melhora o sistema imunológico e ajuda a fortalecer a musculatura vaginal (o que aumenta o prazer e diminui a incontinência urinária).

E por que não costumamos ouvir nossas amigas conversando, abertamente, sobre siririca (outro nome para masturbação feminina)? Só homem que pode ‘‘bater punheta’’ para ser feliz e saudável? Punheta é tema de mesa de bar, escritório, bate-papo virtual, vai parar na tv, no cinema, é exposta pela publicidade em todos os cantos das cidades. E a siririca? Quem fala sobre isso sem o medo de ser julgada? Por que a balança só pesa para um lado? Chega de tacharem nossos corpos tão somente por partes, como num açougue. Chega de nos reduzirem a ‘‘órgão reprodutor feminino’’. Não somos máquina de procriação. Pela liberdade do nosso gozo puro e viscoso! Pelo grito estridente do nosso orgasmo tão intimo e pessoal!

Sobre Malévola e como os contos de fadas não são bem o que nos ensinaram

Maleficent, 2014.

Acabei de assistir Malévola (2014) pela primeira vez e meu coração ainda palpita de uma sensação reconfortante e meus olhos estão inundados por um sentimento de gostaria muito de ter descoberto esta versão do conto original quando mais nova. Pois uma história que coloca abaixo a ideia já, exageradamente, ruminada por épocas sobre os pomposos contos de fadas e os tais beijos salvadores de príncipes encantados merece todo o meu respeito e admiração.

Confesso que ainda estou tentando digerir tudo que vivi e senti. Realmente estou apaixonada por este filme e não consigo imaginar mais ninguém que atuaria de forma tão impecável quanto a poderosíssima Angelina Jolie no papel principal.

A produção é, de fato, uma reinvenção do clássico A Bela Adormecida. Não adianta nem comparar, pois se trata de uma história bem diferente, contada a partir daquela que sempre foi considerada a vilã inquestionável. Mas será mesmo que a linha que separa o bem e o mal é tão ténue assim, como ditam os contos de fadas?

Malévola se impõe como uma produção sobre resistência feminina acima de qualquer dominação masculina que existe desde que o mundo é mundo e que se perdura até no universo da fantasia. O problema está, exatamente, que o plano fantasioso ainda segue com um dos principais responsáveis por pisotear a mente, a autoestima e todo e qualquer sonho de liberdade, autonomia e independência de nossas meninas. Elas crescem à espera de um príncipe encantado que deverá salvá-las. Mas de quê? Delas mesmas e de tudo que podem um dia vir a ser? Cresci com a ideia alienante que só seria plena e feliz de verdade quando o meu príncipe aparecesse. Perdi tempo e momentos comigo mesma nutrindo tamanha noção equivocada que me foi ensinada e empurrada goela abaixo. Só consegui abrir meus olhos recentemente (2012, mais precisamente) com a descoberta do feminismo na minha vida e teria aberto mais cedo não só olhos, quanto a cabeça, se a história da Malévola me fosse contada no lugar daquela da bela adormecida e outras do tipo.

Não digo que devemos privar nossas meninas da fantasia. Não mesmo. Mas elas precisam saber que suas vidas não giram em torno de príncipes encantados. Nossas meninas precisam ter acesso à realidade das mulheres, que passa bem longe daquela narrada, mascarada e enfeitada nos contos de fadas. Elas merecem ter apoio feminino e alguém para empoderá-las e lhes afirmar todos os dias (se assim for necessário e, realmente, é) que elas são as heroínas das próprias histórias e ninguém mais.

Malévola é um marco no quesito evolução dos contos de fadas. O filme gera uma excelente reflexão ao ser assistido por pessoas capazes de se desligarem de seus privilégios patriarcais e valores morais conservadores para observar como a vida real das mulheres na nossa sociedade é bem difícil e, totalmente, oposta daquela repassada na TV, no cinema e nos livros infantis.

Pensei em focar mais no filme em si, mas acho que minha opinião já está bem expressa acima. Assim, recomendo a leitura deste texto incrível (clique aqui), que levanta mais pontos interessantes sobre esta maravilhosa produção cinematográfica.


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Quem tem medo do Feminismo?

No segundo semestre de 2014, a Juliana Duarte, futura amiga de Jornalismo, me fez um convite irrecusável. A Julie me chamou para escrever um texto de opinião para uma revista de laboratório da turma dela na Universidade Santa Cecília (UNISANTA), lá para as bandas da Baixada Santista. Sim, isso mesmo. Eu, estudante de Jornalismo, aqui para as bandas do litoral cearense, fui convidada para ser a única colunista de fora do Estado paulista nessa revista laboratório, que já veio com uma proposta incrível. De cara, obviamente, aceitei o desafio da Julie e, alguns dias depois, meu texto já estava pronto. Agora, bastava a espera de ver a revista pronta e sentir uma felicidade inigualável tomar conta do meu peito e assim aconteceu.

Confira o texto:

Revista Aquela, 2014.

Revista Aquela, 2014.

Já começo desmembrando o questionamento que é a porta de entrada para este texto: Quem tem medo do Feminismo?

Ah, mas fique tranquilo. Não precisa responder. Não agora, pelo menos. Pode guardar a sua resposta para a última frase do derradeiro parágrafo. Não tenha pressa. Pode pensar e refletir. Tudo com muita calma.

Então, voltando.

Quem tem medo do Feminismo tem medo da luta diária das mulheres. Tem medo daquelas que se rebelam. Tem medo daquelas que gritam CHEGA! Daquelas que não aguentam mais carregar tantas correntes. Daquelas que se libertam das correntes que as aprisionam. Daquelas que ajudam umas às outras.

Quem tem medo do Feminismo tem medo do sol amanhecer bem mais lilás ou, como mais gosto de enfatizar, ‘‘roxo feminista’’, minha cor preferida. Quem tem medo do Feminismo tem medo de ter a sua hegemonia surrupiada. E quem tem esse medo, mal sabe que Feminismo não é sobre hegemonia. E nunca será. O Feminismo é sobre equidade de direitos. É sobre liberdade. É sobre poder. Mas, que fique bem claro, o poder aqui mencionado é das mulheres para e com as próprias mulheres. O poder que cada uma deve ter sobre si mesma. Sobre o seu corpo. Sobre, principalmente, as suas escolhas.

Quem tem medo do Feminismo ainda ousa ter medo de uma mulher andando faceira na rua, tão dona de si. Quem tem medo do Feminismo espera o silêncio e ouve o som da salvação. Quem tem medo do Feminismo faz cara feia para a jovem mulher que diz, em letras garrafais, não querer ser mãe. Quem tem medo do Feminismo não suporta a mulher mais velha que escancara a sua sexualidade, sem se sentir errada ou imprudente. Quem tem medo de Feminismo se contorce de frustração com a mulher, que mesmo violentada, sabe que a culpa nunca foi sua. Quem tem medo do Feminismo são aqueles mesmos que soltam estupradores e algemam as vítimas.

Quem tem medo do Feminismo tem muito medo de uma mulher Presidente da República. Que são os mesmos que têm medo de uma jovem, lá do Oriente Médio, que teve a ‘‘a audácia’’ de um ganhar um Nobel da Paz. Que audaciosa não, é?

Quem tem medo do Feminismo tem medo de Malalas, Dilmas, Julianas, Robertas, Vitórias, Marias, Danieles, Nayaras, Lorenas, Ingrides, Carmens, Marianas, Priscilas, Patrícias, Vanessas, Gabrielas, Saras, Letícias, Cynthias…

Enfim, que tem medo do Feminismo, tem medo de todas nós. Mas o nosso recado é simples e direto: Quanto mais vocês mostram que têm medo, mais nós mostramos que não sentimos medo algum.

Para conferir a revista na íntegra, basta CLICAR AQUI.

O que posso dizer mais é que fiquei super orgulhosa do resultado final. Agradeço imensamente à Julie, por ter confiado em mim e no que eu teria a dizer sobre o assunto e parabéns à todos os envolvidos na criação da revista Aquela. Vocês foram demais!

Por que um beijo te incomoda tanto?

(TV Globo/Divulgação).

Na semana passada, a Rede Globo estreou a novela Babilônia e já causou aquele rebuliço pela internet e, principalmente, por todo o país. Confesso que faz muito tempo que não assisto novela da toda poderosa emissora brasileira, mas seria impossível negar tamanha estreia que chegou pisoteando os valores da tão defendida e, ao mesmo tempo, hipócrita ‘‘família tradicional brasileira’’ (lê-se aqui grupo de pessoas que se acham superiores por serem cheios de preconceitos e integrarem a fórmula excludente de família como, necessariamente, homem + mulher + filhinhos).

A questão é que logo em seu primeiro capitulo Babilônia exibiu um digno beijo entre as atrizes consagradas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Sim, até parece mentira, mas é isso mesmo que você leu. Vou até explicar em detalhes, para não restar dúvidas: A Rede Globo de Televisão, já tão conhecida por seus preconceitos velados, seus estereótipos (re)mastigadas e tudo de ruim que há começou uma novela com um beijo entre duas mulheres e senhoras de idade, que fogem do típico padrão de fetiche masculino perante às mulheres lésbicas.

E aqui, mais uma vez, temos uma prova de que representatividade nunca foi tão fundamental como numa época em que a intolerância corre solta para todas as bocas, dedos ferozes (na internet, essencialmente) e os demais ambientes da vida em sociedade. Porque se alguém não se encaixa na fôrma estreita de alguns ‘‘seres humanos’’, logo é considerado um ser errado, que está indo contra a lei de deus. Mas que deus? A dura verdade é que muita gente deveria, pelo menos, começar a entender que a sua religião não é a base incontestável para o resto do mundo. Você acredita? Tudo bem. Está no seu direito, mas isso acaba quando você ousa ferir o direito do outro, lhe dizendo como ele deve ou não agir ou ainda disfarçando seu preconceito com um ‘‘eu respeito, mas não aceito, tenho até amigos que são’’. Esse discurso é tão vazio e desonesto (para não dizer adjetivos mais pesados e que continuariam servindo, perfeitamente, para definir tal fala). Porque você não tem que aceitar nada. É a vida do outro. É um direito pleno, da outra pessoa, amar quem ela bem entender, sendo do mesmo sexo ou não. Seja lá quem for. Existindo amor, isso é o que deveria importar acima de qualquer coisa.

Assim, engula sua ignorância desmedida e tente ser mais sensato. Duas senhoras se beijaram em horário nobre? Beijaram e espero, sinceramente, que se beijem muito mais. Não é só pela quantidade de beijos ou como isso vai afetar quem não suporta ver o diferente na TV e sim para mostrar que a diversidade existe na vida real para muito além dos rótulos e que ela precisa ser estampada nos televisores de todos os brasileiros, para que, de alguma maneira, quem não sente acolhido entre os seus, passe a enxergar que não está só e que não precisa se esconder de ninguém, negando assim sua existência.

Então, surge o questionamento: Será mesmo que foi só um beijo lésbico (que nessa altura do campeonato, nem deveríamos estar fazendo mais este tipo de distinção, porque tudo é beijo) que incomodou tanto a tal ‘‘família tradicional brasileira’’? Não adianta mais disfarçarem um tamanho incomodo com o blablabla de ‘‘ai o mundo está perdido,as crianças não podem ver isso’’. Gente, por favor! Parem de achar que homossexualidade é doença e que ‘‘transmite’’ assim, por osmose ou sei lá mais o que imaginam. Isso é ridículo. É desrespeitoso. Um beijo entre pessoas do mesmo sexo na televisão não causa mal nenhum a ninguém. E se causa em você, melhor abrir a mente e se perguntar se o problema todo não está em ti.

Por essas e muitas outras é importantíssimo jamais parar de ecoar o grito de luta:

Chega de lesbofobia! Chega de preconceito!